Brasil pode combinar eletrificação e etanol para descarbonizar transporte, defendem líderes do setor
Painel da Conferência Internacional DATAGRO discutiu o potencial dos híbridos flex, a competitividade da indústria automotiva brasileira e os desafios para ampliar a eletrificação da frota
São Paulo, outubro de 2026 – O Brasil não precisa escolher entre eletrificação e biocombustíveis para reduzir as emissões do transporte. A combinação de motores elétricos com etanol pode aproveitar características próprias da matriz energética brasileira e criar uma alternativa para a descarbonização da frota, com potencial de aplicação também em outros mercados. Essa foi uma das principais discussões do painel “Eletrificação usando etanol - Tendência no Brasil?”, realizado na 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol.
Para Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a indústria brasileira precisa acompanhar as transformações globais sem abrir mão das oportunidades oferecidas pelo mercado nacional. Como as montadoras são multinacionais e tomam decisões de investimento em escala global, a capacidade de atrair novos projetos depende de conciliar as particularidades brasileiras com as tendências internacionais.
“Na minha visão, não adianta a gente dizer que vai ter um mercado fechado apenas com a tecnologia que a gente quer usar, sem incorporar os conceitos externos. Estamos em um mercado global, as decisões de investimento são globais e a conta também precisa fechar”, defende Calvet.
O executivo acredita na neutralidade tecnológica, com espaço para diferentes soluções de propulsão. Segundo ele, a decisão final deve considerar as necessidades dos consumidores e as condições de cada mercado. Calvet também estima que, até 2040, 80% dos novos emplacamentos de veículos no Brasil serão de modelos eletrificados.
Híbridos flex podem aproveitar vantagens brasileiras
A combinação entre eletrificação e etanol já faz parte da estratégia da BYD para o Brasil. Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da companhia, afirma que o desenvolvimento de veículos híbridos flex foi definido como uma prioridade para adaptar a tecnologia às características do mercado nacional.
O executivo destaca o investimento de R$ 134 milhões no desenvolvimento dessa solução e citou o BYD ATTO 2 DM-i é o primeiro SUV compacto híbrido plug-in flex do mundo, com preço inicial informado de R$ 149.990. Para Baldy, a possibilidade de alternar entre eletricidade, etanol e gasolina amplia a liberdade de escolha do consumidor e permite explorar a infraestrutura energética brasileira.
“Essa associação das tecnologias é fundamental especialmente para a nossa realidade. Temos um país com 93% a 94% da matriz elétrica proveniente de fontes limpas ou renováveis, e temos o etanol. Aproveitar essa riqueza natural do Brasil é conectar a tecnologia à realidade que o consumidor brasileiro tem demonstrado”, considera.
De acordo com o executivo, a proposta também pode ultrapassar as fronteiras brasileiras. A empresa já levou veículos para testes em outros mercados, incluindo a Índia, para avaliar a aderência e a competitividade da tecnologia. A expansão dependerá, porém, das características e condições de cada país.
Baldy também relata que consumidores têm informado à empresa autonomias superiores a 30 quilômetros por litro no uso combinado de determinadas condições de condução. O dado foi apresentado como relato de usuários, sem detalhamento das condições de medição durante o painel.
Eletrificação exige domínio tecnológico e atenção ao ciclo de vida
Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), avalia que a eletrificação continuará avançando, mas não necessariamente levará à substituição integral dos motores a combustão em todos os veículos. Nesse cenário, o uso de biocombustíveis nos motores que permanecerem em circulação pode contribuir para reduzir as emissões.
“O Brasil sai na frente porque tem essa combinação de biocombustíveis com eletricidade renovável. Podemos, sim, influenciar outros países nessa direção, porque já temos a tecnologia e os híbridos plug-in também podem ser um caminho interessante”, comenta.
Para Bastos, o país precisa ampliar sua participação no desenvolvimento de tecnologias de eletrificação, envolvendo montadoras, fabricantes de autopeças e a indústria de biocombustíveis. O desafio não se limita ao uso dos veículos: também envolve a produção dos componentes, a origem das matérias-primas e o destino das baterias ao fim de sua vida útil.
O presidente da ABVE evidencia que a durabilidade crescente das baterias pode postergar a disponibilidade de unidades para reciclagem em escala industrial. Segundo ele, a reciclagem poderá se tornar uma fonte relevante de matérias-primas, inclusive de lítio, mas esse cenário depende da maturação da cadeia e da chegada de volumes suficientes de baterias ao fim de sua vida útil.
Bastos também aponta a produção nacional de baterias e componentes como uma oportunidade industrial para o Brasil, que ainda depende de fornecedores externos em etapas importantes dessa cadeia.
Brasil pode desenvolver uma rota própria
A discussão enfoca que a transição energética no transporte não depende de uma única tecnologia. A eletrificação, os biocombustíveis e os investimentos industriais precisam avançar de forma articulada, levando em conta tanto as tendências globais quanto as condições locais de produção e consumo.
Moderado por Gerson Borini, consultor em engenharia automotiva do site Autoentusiastas, o painel reuniu representantes da BYD, da Anfavea e da ABVE para discutir como o Brasil pode transformar sua experiência com o etanol em uma vantagem competitiva na mobilidade de menor emissão.
A combinação entre eletricidade renovável e biocombustíveis aparece, nesse contexto, como uma alternativa para aproveitar recursos já disponíveis no país e ampliar as possibilidades de descarbonização. A consolidação dessa rota, contudo, dependerá de investimentos, competitividade econômica, desenvolvimento tecnológico e adesão dos consumidores.
Sobre a DATAGRO
Com mais de 40 anos de mercado, a DATAGRO é uma consultoria agroindustrial independente com atuação global e referência no setor.
A companhia produz análises, notícias e dados primários sobre agropecuária, soja, milho, algodão, cana, açúcar, etanol, biodiesel, café, citrus, pecuária, leite e outros mercados, orientando a tomada de decisão de clientes em mais de 50 países. São mais de 130 relatórios mensais sobre 18 commodities agrícolas, de energia e mercados.
Ao todo, a DATAGRO reúne doze unidades de negócios: Alta Performance, Análise de Mercado, Consultoria Estratégica, Gestão, Markets, Financial, Governos, Benri, DataMaps, Deag, Geocane e Experience, área responsável pelos eventos, incluindo o Global Agribusiness Forum (GAF) e o Global Agribusiness Festival (GAFFFF).
Por Assessoria de Imprensa DATAGRO
Daniela Ribeiro - 11.9.9664.3441













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